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20/06/2017 - 20:43h
CURIÓ: CRIAÇÃO E FORMAÇÃO DE PLANTEL

Fonte: Revista Brasil Ornitológico

 

O acasalamento é um elemento complementar fundamental no processo de seleção. Se acasalarmos um macho de qualidades superiores com uma fêmea sua filha, aumentaremos muito as chances de produzir um filho com as qualidades do pai. Seleção é a decisão de permitir que os melhores indivíduos de uma geração sejam pais da geração subsequente. É importante ressaltar que a seleção, apesar de possibilitar a mudança da frequência gênica da população, aumentando a frequência de alelos favoráveis, não cria novos genes. Somente poderemos iniciar um processo de seleção para características presentes em nosso plantel. Mesclando-se as técnicas de INBREEDING, onde os acasalamentos são feitos entre parentes próximos, por exemplo, pai x filha, mãe x filho, meio-irmão x meio-irmão (nunca entre irmãos próprios), avô x neta, etc com LINE-BREEDING, onde os acasalamentos são feitos entre parentescos mais afastados, é possível formar famílias com evidência para as características de um único reprodutor adquirido. Com a formação das linhagens, teremos um plantel mais homogêneo e relacionado, aumentando a previsibilidade genética. Partiremos da introdução de um reprodutor de alto padrão para a formação de uma linhagem homogênea:

 

1ª Geração: Acasalamento do reprodutor com 3 ou 4 fêmeas selecionadas no plantel.

2ª Geração: Acasalamento do reprodutor com as 3 ou 4 melhores fêmeas, suas filhas (da primeira geração). Acasalamento dos meios-irmãos com meios-irmãos (tantos acasalamentos; quanto possível). Não acasalar irmãos próprios. Obs. Como resultado da 2ª geração já poderemos esperar 30 % de produtos com as mesmas características do reprodutor.

 

3ª Geração: O reprodutor será acasalado com suas netas. Os melhores filhotes diretos do reprodutor, da geração anterior serão acasalados com os melhores filhotes dos acasalamentos entre meios-irmãos. Como resultado dessa geração teremos 50% dos produtos com as mesmas qualidades do reprodutor, ou mesmo superiores. Sempre que um pássaro excepcional venha a ser obtido, deve-se iniciar uma família a partir dele, pelo mesmo método. Durante todo o processo de melhoramento devem ser estabelecidos e criteriosamente respeitados os critérios de seleção. A cada criador caberá estabelecer seus critérios de seleção. Ex: fêmeas que não criarem um mínimo de 2 filhotes por temporada serão eliminadas da reprodução. Machos que não encartarem um mínimo de X notas do canto vetorizado ou que não repetirem um mínimo de X cantos por vez, não serão empregados como reprodutores. Esse método de formação de linhagens encontra referência no livro INBREEDING BUDGERIGARDS, de autoria do Dr M.D.S. Armour e é largamente empregado por criadores de canários da Europa. Foi publicado no Cage and Aviary Birds, por Brian Biles, um excelente artigo sobre o sucesso obtido pelo Dr A.R.Robertson, de Durban, África do Sul, empregando esse método de formação de linhagens na criação de periquitos ondulados.

 

O PROCESSO DE SELEÇÃO: Os métodos de reprodução são diversos (consanguinidade, seleção, cruzamento, mestiçagem, hibridação) mas vamos nos ater à Seleção por Consanguinidade em Linha Direta, pratica comumente utilizada na apuração ou aperfeiçoamento de todos os animais criados pelo homem. “A consanguinidade não é prejudicial; pelo contrário, transmite conserva e melhora caracteres que se deseja conservar nos descendentes”. Se acasalamos um pássaro excepcional com uma de suas filhas as chances de se produzir pássaros semelhantes ao reprodutor; é muito maior pois esta sua filha (agora matriz 1) já possui metade (50%) de seus cromossomos, tornando mais fácil a reconstituição do patrimônio genético original. No próximo cruzamento, com a matriz 2, maiores serão as chances por esta matriz já possuir 3/4 (75%) do patrimônio. E assim, sucessivamente.

 

O ESTABELECIMENTO DE CRITÉRIOS INICIAIS: O estabelecimento da Formação de Uma Nova Linhagem, implica, em uma primeira fase, na eleição dos Fundadores desta nova linhagem com as qualidades que entendemos como sendo as ideais para os indivíduos dessa nossa nova linhagem que estamos nos preparando a formar.

 

Então vamos às regras Básicas:

1 – Saúde: básica para qualquer que sejam nossos objetivos de qualidades;

2 – Integridade física: Os fundadores deverão ser férteis, íntegros, sãos. Sem penas defeituosas, bico torto, asas caídas, pés tortos, etc... (não devem ser considerados os defeitos adquiridos por acidentes);

3 - Seleção rigorosa do Fundador com Excepcionais qualidades de canto (repetição) ou fibra;

4 – Vivacidade, Disposição, Alegria, Constância, etc.

5 – Nas Fêmeas Iniciais, além das qualidades acima (onde seja possível enquadra-las) devem ser avaliadas a capacidade de produção (número de ovos por ninhada) e qualidades maternas (choco, alimentação dos filhotes, etc.)

6 – O Macho Inicial deverá ser o melhor que se possa adquirir. Algumas coisas poderão ser melhoradas durante o processo de seleção, mas o plantel será basicamente cópia desse Macho Inicial.

7 – Evite um número muito grande de fêmeas. Importante considerar o tempo disponível.
8 – É indispensável uma seleção rigorosa dos produtos obtidos com a eliminação drástica dos que apresentarem defeitos, taras, doenças, etc. (mesmo que consideradas “menores”) Lembre-se: Defeitos também são transmitidos por via hereditária.

9 – Ter sempre presente o Objetivo a ser atingido. Não espere sucessos imediatos.
10 – A Formação de uma Nova Linhagem de Alta Performance exige Paciência e Perseverança. Os resultados compensarão o tempo despendido com a apresentação de um plantel onde a totalidade ou grande maioria apresentam as mesmas características.

11 – Tenha sempre presente seu Livro de Registro Genealógico. Todos os passos devem ser registrados.

12 – Após o terceiro cruzamento, os avanços são aparentemente pequenos, caso tenha dúvidas, não se acanhe em pedir ajuda a um amigo ou criador dotado de notória competência e sensibilidade, para ajuda-lo a selecionar os pássaros que continuarão no processo de formação do Reprodutor.

13 – É importante estabelecer o limite de “chocadas” para cada fêmea. Um número ótimo seria 3 por temporada. A partir daí a mãe pode estar enfraquecida pelo desgaste e fadiga e poderá produzir filhos fracos. É de se considerar também que esses filhotes (fêmeas), nascidas no início da temporada, poderão estar aptas à procriação na temporada seguinte. Nosso objetivo é Formar uma Linhagem e não obter um número ilimitado de filhotes. 
14 – Todos os criadores já observaram que em ninhadas de 3 ou 4 filhotes, quase sempre encontra-se um que cresce mais rapidamente. Identifique esse filhote. Ainda existem fatores que não conseguimos traduzir ou encontrar explicações e esse privilegiado poderá ser o nosso “diferencial”. A primeira seleção começa no ninho.

15 – O Selecionador que tenha dúvidas de suas qualidades como criador, deverá buscar sua capacitação e atualização junto a outros consagrados criadores e especialmente ser assessorado por um veterinário competente. De nada adiantará todo um trabalho de seleção se não acompanhado por igual cuidados sanitários, alimentares e de higiene.

 

Somente com a consanguinidade é possível obter-se linhagens de alta genealogia

 

"A consanguinidade não é nada mais que um meio para se fazer evidenciar os caracteres – positivos e negativos – na posse de um determinado patrimônio hereditário de um indivíduo” Giorgio di Baseggio renomado selecionador de canários de cor e autor de diversos trabalhos sobre seleção de pássaros.

 

O PROGRAMA:

 

Estabelecido o Macho Inicial ou Macho Fundador, deverá ser acasalado com pelo menos 3 (três) Fêmeas Iniciais. Então teremos: 

 

- Primeiro Cruzamento: Macho Inicial x Fêmea Inicial = F1 = ½ Sangue ou ainda 50% dos genes do Macho e 50% dos genes da Fêmea.

 

 - Segundo Cruzamento: Macho Inicial x Fêmea F1 = F2 = 3/4 Sangue ou ainda 75% dos genes do Macho e 25% dos genes da Fêmea.

 

 - Terceiro Cruzamento: Macho Inicial x Fêmea F2 = F3 = 7/8 Sangue ou ainda 87,5% dos genes do Macho e 12,5% dos genes da Fêmea. 

 

- Quarto Cruzamento: Macho Inicial x Fêmea F3 = F4 = 15/16 Sangue ou ainda 93,75% dos genes do Macho e 6,25% dos genes da Fêmea. 

 

- Quinto Cruzamento: Macho Inicial x Fêmea F4 = F5 = 31/32 Sangue ou ainda 96,875% dos genes do Macho e 3,125% dos genes da Fêmea. 

 

CONSIDERAÇÕES:

1 - No Quinto Cruzamento, o produto 31/32 de sangue do Macho Inicial, já é considerado puro por cruza. Praticamente Homozigótico, é o Reprodutor que queremos para a Formação de nosso Plantel.

2 – Até esse cruzamento é considerado seguro ou com pequenos riscos.

3 – Pode ser tentado mais um cruzamento, ou seja, o Sexto Cruzamento desta Linha Direta, o F6 = 63/64 de sangue do Macho Inicial, porém deve ser considerado se compensa: a) um aumento de possibilidade de riscos (diminuição de tamanho, saúde, taras, etc.);b) ganho de apenas mais 1,5625% a mais de sangue do Macho Inicial.

 

Nota-1: Alguns autores entendem que o produto F4, que detém 15/16 de sangue do Macho Inicial já é considerado Puro por Cruza, enquanto que outros entendem ser o F6 (63/64 de sangue do Macho Inicial), outros vão muito além e exigem um F10 (1023/1024).

 

Nota-2: Muito embora esse esquema e programa tenha privilegiado o macho, pode também ser feito a partir da Fêmea, porém mais difícil (um macho pode fertilizar várias fêmeas por temporada) e de maior risco (entre dois filhos – irmãos de ninho – haverá um longo tempo de espera de definições para eleger qual dos irmãos será o padreador) e no caso da perda súbita da fêmea ou à sua inaptidão temporária para a procriação o programa estará paralisado.

 

Nota-3: Não cometa o erro de vender os melhores pássaros. Vendidos os melhores interrompe-se o processo. Mantenha no plantel sempre os melhores: Você está em processo de Formação de uma Nova Linhagem.

 

Nota-4: “O poder do “Raçador” é transmissível apenas naquelas qualidades e características concernentes à dominância” Stéphane Vansteelant – fonte revista Brasil Ornitológico

 

Nota-5: “Os genes variam de tamanho, desde algumas centenas até dois milhões de pares de bases de ADN; são os responsáveis pela transmissão dos caracteres hereditários, como a cor dos olhos, tipo de pêlo, orelhas, temperamento, canto, displasias, etc. Na realidade, os genes são a entidade funcional da informação”.(José Carlos Pereira–Passarinheiro e pesquisador-Cruzeiro-SP) Parabéns! Até aqui você trabalhou num programa que objetivou a obtenção do Macho. A partir de agora ele passa a chamar-se Reprodutor. Será praticamente um clone do Macho Inicial que graças a homozigose será de "linhagem pura" para os caracteres selecionados, ou seja, conseguirá passar suas excepcionais qualidades nos futuros cruzamentos. Esse Raçador será o “Chefe do Plantel”. Por Raçador entende-se o pássaro nascido de acasalamentos previamente estabelecidos e cuidadosamente selecionado, que acumula valores raciais dominantes para determinados caracteres, capaz de transmitir e imprimir suas excelentes características a seus filhos. Mas, quais serão esses futuros cruzamentos que manterão a qualidade e a homogeneidade do plantel???No processo de formação deste Reprodutor, estaremos formando também um excelente plantel. 

 

Analisemos:

1 – Por que 3 (três) Fêmeas Iniciais?

a) Porque com pelo menos 3 fêmeas teremos condições de conseguirmos pelo menos 4 Fêmeas F1; o ideal, para segurança de execução do programa.

b) Após conseguidas as 4 (quatro) Fêmeas F1, as Fêmeas Iniciais poderão ser descartadas, ou conduzidas para outro programa, pois as F1 já passam a fazer parte de nosso programa de seleção;

c)  Os machos F1, podem ser descartados ou utilizados em outro programa.

 

2 – Após a obtenção de pelo menos 4 (quatro) Fêmeas F2, as fêmeas F1 serão destinadas temporariamente para outro programa pois elas serão utilizadas para a produção do produto 5/8 (para a obtenção deste produto, poderá ser utilizado um dos primeiros machos F1, desde que tenha demonstrado excepcionais qualidades). Obs.: Estudos em bovinos, comprovam que o produto que tenha 5/8 de sangue do Reprodutor Inicial, conseguem manter a homogeneidade de tipo e de qualidades. Ex.: Santa Gertrudes (5/8 Shorton + 3/8 Nelore); Pitangueiras (5/8 Red Polled + 3/8 Guzerá); Brangus ( 5/8 Aberdeen + 3/8 Nelore); Canchim (5/8 Charolês + 3/8 Nelore); etc.

 

3 - Como formar o 5/8???O melhor Macho F2 (3/4) cruzado com a melhor Fêmea F1 (1/2) ou vice versa = 3/4 + 2/4 = 5/8

 

4 – Após conseguida a reprodução de pelo menos 4 fêmeas F3, os produtos F2 não utilizados na formação do 5/8 poderão ser descartados destinadas a outro programa.

5 – A partir do momento da obtenção do produto F3, o criador deverá redobrar a atenção e avaliação, pois todos os produtos já estarão ou deverão estar muito acima da média. A partir da obtenção do F2, poderá ser observado a semelhança entre os indivíduos. O curioso é que eventualmente os machos F2 (3/4) podem ser inferiores ou praticamente iguais aos F1 (1/2), tal fato explica-se pelo choque de sangue do cruzamento inicial, porém os F3, começarão a apresentar a homogeneidade no Genótipo.

 

6 – A partir da obtenção de 4 (quatro) fêmeas F4, as fêmeas F1 e F2, estarão praticamente descartadas ou destinadas a outro programa.

 

7 – Se, nesta etapa, por fatalidade, faltar o Macho Inicial, um de seus filhos F4 (o de melhor desempenho dentro da ótica de nosso objetivo) que já é 15/16 ou ainda detentor de 93,75% de sangue do Macho Inicial, poderá substituí-lo. Não cruzando com sua irmã de ninho, mas com as fêmeas 5/8, cujo produto será 20/24 ou 83,33% de sangue do Macho Inicial.

 

8 – Devem ser evitados os cruzamentos entre irmãos próprios F1 ou F2.

 

9 – Sobre a possibilidade e resultados do cruzamento do F5 de uma seleção com outro F5 de outra seleção não aparentado, transcrevemos: “De outro modo o autor tem constatado que se acasalando duas aves, ambas criadas em consanguinidade, porém provenientes de dois criadouros diferentes, nos filhos explode a vitalidade, a fertilidade, o vigor em altos níveis. Isto, sempre, se não existirem genes incompatíveis entre a duas cepas consanguíneas. A mencionada explosão de vitalidade é devida essencialmente ao fato de que as duas aves provenham ambas de linhagens selecionadas em consanguinidade há anos, nos quais muitas taras hereditárias e muitos defeitos (esterilidade, plumagem disforme, posições erradas etc.) foram sendo descartadas, sem piedade”. Giorgio de Baseggio - Bolonha, julho 1987 criador de canários de cor 24 anos de estudos sobre a consanguinidade - transcrito de AO - Atualidades Ornitológicas

 

CONCLUSÃO: O esquema aqui apresentado, propositadamente em curtos tópicos, de forma simples, tem por finalidade fazer ver ao criador de passeriformes canoros nativos que o processo seletivo por consanguinidade em linha direta é acessível a todos e nosso objetivo maior é despertar a curiosidade por maiores conhecimentos neste segmento. O principal é que a partir de agora, a Criação de Passeriformes Canoros Nativos, entra em nova e importante fase, a SELEÇÃO.

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